Erliquiose: por que o litoral norte é zona endêmica e como proteger seu cão
Por OceanVet · Bertioga, litoral norte de SP
Erliquiose é uma das doenças que a gente mais vê aqui na OceanVet, especialmente de novembro a março. Não é coincidência: o calor e a umidade do litoral norte de SP criam condições muito favoráveis para o carrapato marrom (Rhipicephalus sanguineus), que é o principal transmissor da bactéria Ehrlichia canis nos cães. E a alta temporada traz uma variável a mais — muitos cães chegando de fora sem antiparasitário em dia, encontrando aqui um ambiente com carga de carrapatos muito maior do que estão acostumados.
O que é a Ehrlichia e como ela age
A Ehrlichia canis é uma bactéria intracelular obrigatória — ela infecta os monócitos e macrófagos do cão, as células que deveriam estar defendendo o organismo. Isso explica porque a doença é tão inespecífica no começo: o sistema imune fica comprometido sem sinais óbvios de onde está o problema.
A transmissão acontece durante o repasto sanguíneo do carrapato. E aqui vai um ponto que muito tutor não sabe: a transmissão pode ocorrer em apenas 3 horas após a fixação do carrapato. Não existe janela segura pra remoção manual. Quando você acha o bicho grudado, a contaminação pode já ter acontecido. Como os tutores muitas vezes não percebem o carrapato a tempo, essa porta de entrada passa facilmente despercebida. O período de incubação na erliquiose canina é de 8 a 20 dias após a picada. Fonte: Fourie 2013 (PubMed) · Jongejan 2025 (Parasites & Vectors)
Por que Bertioga e o litoral norte têm infestação alta
O Rhipicephalus sanguineus prospera entre 25°C e 35°C, com umidade relativa acima de 70%. Bertioga bate esses números boa parte do ano. A vegetação das margens dos rios, as áreas gramadas do Riviera e dos condomínios residenciais de Vista Linda e Boraceia oferecem esconderijo perfeito para os carrapatos em diferentes estágios do ciclo de vida (larva, ninfa e adulto).
Quando o verão começa e os condomínios enchem, chega um volume muito maior de cães — muitos vindos de São Paulo, onde o controle de carrapatos é menos rigoroso simplesmente porque a exposição é menor. Esses animais chegam sem proteção suficiente e entram em contato imediato com uma população de carrapatos muito densa.
Como reconhecer os sinais clínicos
A erliquiose tem três fases. A fase aguda, que dura 2 a 4 semanas, costuma passar despercebida ou ser confundida com virose: o cão fica apático, perde o apetite, pode ter febre (39,5–41°C), e às vezes tem um pouco de secreção nos olhos. Muitos tutores acham que "passou sozinho" — mas a bactéria não foi embora. Ela só entrou na fase subclínica.
A fase subclínica pode durar meses, às vezes anos, sem sintomas evidentes. O cão parece normal. Mas os números no laboratório vão piorando em silêncio: trombocitopenia (plaquetas baixas) é o achado mais consistente, junto com hiperglobulinemia (proteínas inflamatórias elevadas no perfil bioquímico). Anemia progressiva e queda nos leucócitos também aparecem. Esse par — trombocitopenia + hiperglobulinemia — é um dos sinais mais úteis pra a gente desconfiar mesmo quando o cão chega "sem nada".
Outro ponto que tratamos com seriedade aqui: o carrapato marrom raramente traz só erliquiose. É comum aparecer coinfecção com Babesia, Anaplasma ou Hepatozoon no mesmo animal, e isso muda tanto o painel de exames quanto o tratamento. Por isso, em cão com suspeita, a gente costuma pedir um painel ampliado de hemoparasitas, não só Ehrlichia isolada.
A fase crônica é a mais grave. Quando chega nessa etapa, o cão apresenta:
- Sangramento espontâneo (pontos vermelhos na pele, sangue nas fezes ou na urina)
- Perda de peso acentuada, fraqueza muscular
- Distensão abdominal (esplenomegalia)
- Infecções secundárias frequentes
- Em casos mais avançados, insuficiência renal
A fase crônica é difícil de reverter. Alguns cães chegam aqui nessa condição depois de meses com sinais vagos que foram sendo ignorados. O prognóstico muda muito dependendo de quando se começa o tratamento.
Como a gente diagnostica
A suspeita começa pelo hemograma. Trombocitopenia em cão que mora ou visitou região de carrapatos já levanta a hipótese de erliquiose imediatamente. A confirmação pode ser feita por sorologia (ELISA ou RIFI, que detectam anticorpos) ou por PCR, que é mais sensível nas fases iniciais antes de a resposta imune se estabelecer.
Vale saber: um cão pode ter carrapatos e hemograma normal, e ainda assim estar incubando a doença. Se você tirou um carrapato do seu cão há menos de 3 semanas, avisa a gente — vale monitorar.
O tratamento funciona bem quando precoce
Doxiciclina. É o antibiótico de eleição para erliquiose canina, e responde muito bem quando o diagnóstico é feito na fase aguda ou subclínica inicial. O protocolo habitual é de 28 dias. Cães que chegam em fase crônica avançada podem precisar de suporte adicional: transfusão de sangue, suporte renal, e em casos selecionados de trombocitopenia imunomediada grave, corticoide em dose imunomoduladora — sempre sob avaliação caso a caso.
Importante: corticoide não é rotina em erliquiose. A gente vê tutor chegando com cão que tomou prednisolona "porque o outro veterinário receitou", e isso pode mascarar o quadro ou piorar a imunossupressão. Só entra quando há indicação clínica específica.
Nunca interrompa o antibiótico antes do prazo, mesmo que o cão melhore em 4–5 dias. A melhora clínica é rápida, mas a eliminação completa da bactéria não é.
Prevenção: antiparasitário em dia, sem negociação
Não existe vacina contra erliquiose canina disponível no Brasil. A prevenção é inteiramente baseada no controle do carrapato. Hoje a primeira linha que a gente recomenda aqui na OceanVet são as isoxazolinas orais: fluralaner (Bravecto, 12 semanas), afoxolaner (NexGard), sarolaner (Simparic) ou lotilaner (Credelio). O grande motivo é o knockdown rápido — o carrapato morre em menos de 8 horas após subir no cão, antes da janela de transmissão acontecer. Coleiras e spot-ons ainda servem como reforço ou alternativa, mas o oral mensal/trimestral virou o padrão pra região nossa. Se você está vindo pra Bertioga e o seu cão está há mais de 30 dias sem antiparasitário, dá uma dose antes de sair de casa. Fonte: ESCCAP Guideline GL5 (2024)
Além disso: inspecione o cão depois de passeios em áreas gramadas ou com vegetação densa. Preste atenção especialmente nas regiões da cabeça, pescoço, axilas e entre os dedos. Carrapatos ninfas (jovens) são minúsculos e fáceis de passar.
O litoral norte é lindo e vale cada visita. Só não dá pra descuidar do básico.
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