Pernilongo e seu pet: doenças que ele transmite no litoral
Por OceanVet · Bertioga, litoral norte de SP
No final do dia em Bertioga, quando o vento para e o calor baixa um pouco, o mosquito aparece. Todo mundo sabe disso. O que muita gente não sabe é que o pernilongo não é só incômodo — ele é vetor de doenças que afetam cães e gatos de verdade, e algumas dessas doenças não dão sinal por anos até o quadro já estar grave.
Vamos por partes, porque há confusão comum entre espécies de mosquito e o que cada uma transmite.
Culex e Aedes: dois mosquitos, perfis diferentes
O mosquito que mais incomoda no entardecer e à noite no litoral norte é o Culex quinquefasciatus — o pernilongo comum, aquele que zumbe perto do ouvido antes de dormir. O Aedes albopictus (o "mosquito tigre", primo do Aedes aegypti) pica principalmente durante o dia, especialmente pela manhã e final de tarde, e está muito presente em Bertioga graças à umidade e à quantidade de vegetação.
Para fins de saúde animal no litoral norte, o que mais importa é: diversas espécies de Culex e Aedes são vetores de Dirofilaria immitis no Brasil; Culex quinquefasciatus é um dos principais transmissores de dirofilariose em cães. O Aedes não transmite dirofilariose, mas pode transmitir dengue e chikungunya — doenças relevantes para humanos, com impacto ainda estudado em animais.
Dirofilariose: o verme do coração
A dirofilariose é causada pela Dirofilaria immitis, um nematódeo que se instala nas artérias pulmonares e, em infecções pesadas, no coração do cão. A transmissão acontece pela picada do Culex: o mosquito ingere microfilárias (larvas circulantes) quando pica um cão infectado, e ao picar outro cão deposita as larvas infectantes na pele.
O problema é o tempo. A larva demora cerca de 6 meses para se desenvolver em verme adulto dentro do cão. E o verme adulto pode viver de 5 a 7 anos no hospedeiro. Isso significa que um cão pode estar infectado há anos antes de mostrar qualquer sinal clínico.
Quando os sintomas aparecem, já há carga parasitária significativa:
- Tosse seca persistente, especialmente após exercício
- Intolerância ao esforço (o cão cansa fácil, para de brincar)
- Perda de peso sem causa aparente
- Distensão abdominal por ascite (acúmulo de líquido)
- Síncope (desmaio) em casos avançados
O tratamento da dirofilariose ativa é complexo, caro e tem riscos sérios (morte dos vermes adultos pode causar tromboembolismo pulmonar). A prevenção é infinitamente mais simples. Existe profilaxia mensal eficaz — ivermectina em dose baixa, milbemicina, moxidectina — que mata as larvas antes de se desenvolverem em adultos. Se o seu cão mora no litoral ou passa temporadas por aqui, isso não é opcional.
Gatos e dermatite por picada
Gatos de pelagem clara — especialmente brancos e ruivos — são suscetíveis à dermatite actínica e à dermatite por picada de inseto nas orelhas. A região da ponta da orelha, onde a pele é fina e exposta, é alvo frequente do Aedes e do Culex.
Com picadas repetidas, desenvolve-se inflamação crônica na borda da orelha — começa como vermelhidão e descamação, pode evoluir para crostas, úlceras, e a exposição solar piora o quadro (a inflamação por picada torna a pele mais sensível à radiação UV). Em casos de longa duração não tratados, pode surgir carcinoma de células escamosas — um tipo de câncer de pele agressivo.
Se você tem um gato branco ou ruivo em Bertioga, vale observar as orelhas periodicamente. Qualquer espessamento, perda de pelo na ponta da orelha ou vermelhidão persistente merece avaliação.
Leishmaniose: não é o pernilongo, mas gera confusão
Muita gente ouve falar de leishmaniose e associa imediatamente a "mosquito". Importante esclarecer: a leishmaniose visceral canina é transmitida pelo flebotomíneo (Lutzomyia longipalpis), um inseto diferente do mosquito comum, muito menor, que não zumbe e pica de forma praticamente imperceptível.
Bertioga e o litoral norte de SP não são área endêmica para leishmaniose visceral canina (as áreas endêmicas no estado se concentram mais no interior, especialmente região de Araçatuba e Bauru). Mas o vetor pode estar presente em áreas de mata, e cães que transitam entre o litoral e municípios do interior endêmico precisam de avaliação.
No Brasil, a única vacina registrada contra leishmaniose canina é a Leish-Tec (antígeno A2, MAPA). Letifend é vacina europeia não comercializada no Brasil. Verifique disponibilidade atual com seu veterinário. Além da vacina, coleiras repelentes com deltametrina ajudam a afastar o flebotomíneo. Se você tem dúvida sobre o risco do seu cão, a gente avalia o histórico de deslocamento e indica o que faz sentido.
O que usar (e o que nunca usar) como repelente no pet
DEET, presente em muitos repelentes humanos, é tóxico para cães e gatos. Permetrina é segura para cães mas extremamente tóxica para gatos — não use qualquer produto com permetrina em gato ou em ambiente onde o gato circula. Isso é sério. Intoxicação por permetrina em gatos é emergência neurológica.
Produtos indicados para pets:
- Coleiras impregnadas com deltametrina — uso EXCLUSIVO em cães. Gatos que convivem com cães devem ser monitorados (evitar contato com a coleira). (Afasta flebotomíneo e carrapato)
- Spot-on ou spray com citronela, eucalipto ou neem (eficácia limitada, mas sem toxicidade)
- Telas nas janelas e portas — simples, barato, muito eficaz
- Eliminar água parada no quintal: qualquer recipiente com menos de 2 cm de água já é criadouro para Culex
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