No litoral, pulga e carrapato não tiram férias
Por OceanVet · Bertioga, litoral norte de SP
Existe uma crença muito comum entre tutores que chegam de São Paulo pra passar uma temporada em Bertioga: "no inverno tem menos pulga". Faz sentido intuitivo — no interior, a temperatura cai, os parasitas somem. Só que o litoral norte de SP não funciona assim. A temperatura média aqui fica em torno de 26°C mesmo nos meses mais frios, e a umidade relativa raramente desce abaixo de 80%. Pra pulga e carrapato, isso não é inverno. É um spa particular, aberto 365 dias por ano.
Os parasitas que você vai encontrar aqui
Não é um bicho só. Bertioga tem pelo menos três parasitas externos que a gente vê com frequência na clínica, e cada um tem comportamento diferente.
O Rhipicephalus sanguineus é o carrapato marrom do cão, o mais comum em ambiente urbano. Ele completa todo o ciclo de vida no próprio hospedeiro canino, o que significa que ele pode se estabelecer dentro de casa, em frestas de parede, embaixo de sofá, atrás de rodapé. Cão que fica em casa também pode se infestrar se o ambiente já estiver contaminado. Mora em Vista Linda, tem quintal, tem mato ao redor? A probabilidade de encontrar esse carrapato é alta.
O Amblyomma sculptum (carrapato-estrela) — espécie predominante no litoral paulista, vetor de febre maculosa, associada a capivaras e queixadas — é menos urbano mas está presente nas matas ao redor de Bertioga e nas trilhas que cortam o parque estadual. Se você leva seu cão pra caminhar na mata perto de Boraceia ou nas trilhas do entorno do Rio Itapanhaú, esse é o carrapato que pode aparecer. Ele tem ciclo de vida em três hospedeiros diferentes, incluindo animais silvestres como queixadas e capivara, o que complica o controle ambiental.
Já a Ctenocephalides felis — a pulga do gato, mas que ataca cão também — é absolutamente ubíqua no litoral. Ela não precisa do hospedeiro pra sobreviver na fase de larva; fica no ambiente, nos tapetes, nas rachaduras do piso, esperando um animal passar. Uma fêmea adulta pode colocar até 50 ovos por dia. Cinquenta.
Doenças que esses parasitas transmitem
Isso não é conversa de encher linguiça. São doenças reais, que a gente trata aqui, com desfechos sérios quando o diagnóstico demora.
A erliquiose (causada pela Ehrlichia canis, transmitida pelo Rhipicephalus) começa com febre, inapetência e linfadenomegalia — gânglios inchados que você às vezes consegue sentir no pescoço ou virilha. Na fase aguda responde bem a doxiciclina. Se não tratar e virar forma crônica, o animal desenvolve pancitopenia severa e o prognóstico piora muito. Infelizmente a gente ainda vê casos chegando já em fase crônica porque o tutor achava que era "preguiça" do cão.
A babesiose (transmitida também por carrapatos) destrói hemácias. O animal fica anêmico, com mucosas pálidas ou amareladas, urina escura, fraco. É emergência. Tratamento com imidocarb dipropionato funciona, mas quanto mais tarde começa, maior o dano.
A dermatite alérgica à picada de pulga (DAPP) é a condição dermatológica mais comum que vemos em cães no litoral. O animal desenvolve hipersensibilidade à saliva da pulga, e uma única pulga já é suficiente pra desencadear crise. Coceira intensa na região lombar e na base da cauda, pelos partidos, pele vermelha e com crostas. É incômodo pra o animal e frustrante pra o tutor que não entende de onde vem.
Como fazer inspeção depois do passeio
Rotina simples, demora dois minutos. Funciona.
- Passa os dedos contra o sentido do pelo, especialmente nas regiões quentes: axilas, virilha, pescoço, entre os dedos das patas e ao redor das orelhas
- Procure tanto o carrapato adulto (fácil de sentir, firme) quanto as ninfas (menores que uma semente de gergelim, cor de cobre claro)
- Pra pulga: olhe na barriga e na base da cauda; procure também "fezes de pulga" — pontinhos pretos que, molhados num papel branco, soltam uma mancha vermelha (digeriram sangue)
- Se encontrar carrapato, retire com pinça de ponta fina, segurando perto da pele sem girar, puxando pra cima com tração suave e uniforme
Nunca use vaselina, álcool, fósforo ou qualquer outra técnica que você viu na internet. Essas coisas fazem o carrapato regurgitar o conteúdo do intestino pra dentro do seu pet antes de soltar, que é exatamente o que você não quer.
Por que manter a proteção no inverno também
Aqui é onde a maioria dos problemas começa. O tutor usa coleira antipulgas ou spot-on durante o verão, quando a casa tá cheia, quando o cachorro tá indo pra praia todo dia. Aí em abril ou maio, a frequência cai, e o produto fica sem reaplicação. "Tá mais frio, não precisa mais." Só que em Bertioga o bicho tá ativo o tempo inteiro, e agora o cão ficou descoberto.
Coleiras de longa duração (os produtos com fluralaner ou sarolaner na formulação tópica mensal, ou as coleiras com deltametrina/imidacloprid que duram quatro meses) precisam de reposição dentro do prazo. Sem exceção. O inverno não é motivo suficiente pra interromper.
A marca e a formulação certa dependem do peso do animal, da espécie (cão e gato têm produtos diferentes, e alguns produtos caninos são tóxicos pra gatos), da presença de outras doenças e até de se o bicho toma banho com frequência. Isso a gente orienta na consulta.
Tratar o pet sem tratar o ambiente não resolve
Esse é o erro mais comum. O tutor mata a pulga no cão, mas não trata o ambiente. As larvas que estão no tapete, nas rachaduras do piso e na cama do bicho vão eclodir em 2 a 4 semanas, e aí começa de novo.
Pra o ambiente, produtos com inseticidas mais reguladores de crescimento (IGRs como metoprene ou piriproxifeno) são mais eficazes do que inseticidas simples porque eliminam também ovos e larvas, não só adultos. Aplica nos locais onde o pet fica, embaixo de móveis, nas frestas. Não no lugar onde o gato dorme, sem ventilação adequada, e não enquanto os animais estão no cômodo.
Se a infestação já está pesada, o piso de madeira tem frestas profundas, ou tem muito animal na casa, vale chamar uma empresa de desinsetização pra aplicação profissional antes de iniciar o controle de manutenção.
O controle de parasitas em Bertioga é diferente do que você vai ler num artigo genérico escrito pra quem mora em Curitiba. O clima específico do litoral norte muda o calendário inteiro. Se você tem dúvida sobre qual produto usar, se o protocolo que você tá seguindo tá correto, ou se quer avaliar o seu pet presencialmente, é só chamar a gente na Av. Anchieta ou pelo WhatsApp.
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